Colágeno em creme e shampoo nas prateleiras de uma farmácia. Mulher adulta segura um frasco de cosmético com colágeno, cercada por diversos produtos corporais e capilares.

Colágeno em creme e shampoo funciona mesmo?

Estava eu aqui, fazendo o que sempre faço: pesquisando, avaliando estudos científicos e dando aquela olhada nos rótulos dos produtos que vejo por aí, tudo pra trazer um artigo novo pro blog. E, por acaso, numa dessas navegadas, me deparei com a propaganda de uma linha de hidratantes muito famosa, vendida em farmácias e supermercados. São os tais “séruns corporais”, bem bonitos, com uma promessa elegante e textura leve.

Já usei. O sensorial é bom. E confesso: mesmo sendo profissional da área e alertando direto aqui no blog sobre as pegadinhas da indústria cosmética, nem sempre presto atenção em tudo. Acabo fazendo escolhas sem critério, como todo mundo.

Na época, escolhi a versão com niacinamida. Achei legal. Deixava a pele com um viço bonito, e sem aquele derretimento desconfortável do creme saindo no banho, sabe? Ele realmente parecia penetrar melhor.

Mas agora a linha cresceu. Vieram outras versões. E uma delas… com colágeno em creme e shampoo. Mas será que o colágeno presente nos cosméticos realmente traz firmeza para a pele e reconstrução para os cabelos? É sobre isso que eu quero conversar com você hoje.

 

O que é o colágeno e qual é o papel dele na pele e no cabelo?

O colágeno é uma proteína produzida naturalmente pelo nosso corpo e tem papel fundamental na estrutura da pele, dos cabelos, das unhas, dos ossos e das articulações.

Na pele, ele funciona como um andaime invisível que dá firmeza, sustentação e elasticidade. É ele que mantém o tecido preenchido, resistente e com aparência jovem.

Nos cabelos, a atuação do colágeno é mais indireta. Ele está presente na derme, onde ficam os vasos sanguíneos e toda a estrutura de sustentação dos folículos pilosos, que são as fábricas dos fios. O colágeno não entra na composição do fio, que é feito basicamente de queratina. Ou seja, ele não faz o cabelo crescer, mas ajuda a manter saudável o ambiente onde o fio nasce. O mesmo vale para as unhas.

Com o passar dos anos e com fatores como sol, tabagismo, estresse, má alimentação, a produção natural de colágeno vai diminuindo. E aí vêm as rugas, a flacidez, a perda de viço… e, claro, a indústria cosmética pronta pra oferecer soluções em potes e frascos.

 

Colágeno em creme funciona?

Quando a gente vê colágeno estampado na embalagem de um creme ou sérum, a impressão que dá é que aquele produto vai repor o colágeno que a pele perdeu. Só que, na prática, a história não é tão simples assim.

O colágeno é uma molécula grande demais para atravessar a barreira da pele. Ele não chega até a derme, que é onde a produção de colágeno realmente acontece. Ou seja, não adianta aplicar colágeno esperando um milagre, porque ele não vai acontecer.

O que esses produtos fazem, na maioria das vezes, é usar o colágeno como umectante leve ou agente filmógeno, pra dar maciez e uma sensação temporária de hidratação. Às vezes, ele também entra na fórmula pra melhorar a textura do produto, mas isso tem mais a ver com o sensorial do que com um efeito biológico.

Então não: colágeno nas formulações dos cosméticos não repõe o colágeno perdido. Ele pode até deixar a pele mais macia ao toque, mas não vai preencher rugas nem estimular firmeza. E esse é o tipo de informação que deveria estar bem clara no rótulo, mas quase nunca está.

 

Mas, e no shampoo?

Quando o colágeno aparece nos rótulos dos shampoos ou condicionadores, o discurso é quase sempre o mesmo: força, reconstrução, hidratação intensa. Mas, esquecem de um detalhe: o fio de cabelo é feito de queratina, não de colágeno. E mais, ele já nasce sem vida, como uma estrutura “morta”. Isso significa que não há como nutrir o fio com colágeno da forma como muita gente imagina. Ele não vai entrar na fibra capilar nem reconstruir o que foi perdido.

O que pode acontecer é o colágeno hidrolisado (ou derivados) agir como formador de filme, dando brilho, reduzindo o frizz ou melhorando a penteabilidade. Mas esse efeito é superficial e temporário, sai no enxágue e não transforma a estrutura do fio. Ou seja, pode até deixar o cabelo mais bonito ao toque, mas não fortalece de verdade. Mais uma vez, é o marketing que se aproveita do nome colágeno pra sugerir um milagre que não acontece.

 

Por que as marcas continuam usando colágeno em creme e shampoo?

Porque o nome colágeno vende. Simples assim.

A maioria das pessoas associa o termo à juventude, firmeza, cabelo bonito, pele sem rugas. E mesmo quem nunca pesquisou sobre o assunto já ouviu que colágeno é bom. Ou seja, ele tem apelo emocional, gera confiança… e preenche a embalagem como se fosse um ativo milagroso.

Pra indústria, não importa se o colágeno não penetra na pele e nem reconstrói o fio de cabelo. O que importa é que ele cria uma promessa disfarçada de tecnologia. Coloca o nome na frente do rótulo, uma textura leve, um perfume gostoso e pronto: muita gente compra achando que está fazendo um investimento no próprio colágeno natural.

E é por isso que essas fórmulas continuam aparecendo por aí. Nem sempre pra tratar. Mas quase sempre pra convencer.

 

Então o colágeno não serve pra nada?

A resposta é: depende. Hoje, o que se tem de mais promissor são os peptídeos de colágeno hidrolisado por via oral, que podem ajudar na produção natural de colágeno da pele. Mas a maioria dos estudos que mostram esses benefícios, como melhora da elasticidade ou redução de rugas após algumas semanas, são financiados pelas próprias marcas que produzem os suplementos, o que pode indicar a existência de conflito de interesse.

Além disso, esses resultados só aparecem em protocolos bem controlados, com doses específicas, alimentação equilibrada e uso contínuo por meses. Sem vitamina C, silício, zinco e outros cofatores, o colágeno sozinho não faz grande diferença.

Em outras palavras, o colágeno é naturalmente produzido pelo nosso organismo, logo, devemos estimular essa produção, com uma alimentação saudável rica em vitamina C, silício orgânico, antioxidantes…

 

Como identificar a quantidade de colágeno nas fórmulas de cremes e shampoo?

Nos cosméticos, assim como nos alimentos, os ingredientes são listados em ordem decrescente de concentração. Ou seja, os que aparecem primeiro estão em maior quantidade na fórmula. Se o colágeno está só no final da lista, provavelmente foi incluído em dose simbólica, só pra constar no rótulo.

Agora, mesmo que ele esteja entre os primeiros, isso não muda o fato de que o colágeno é uma molécula grande demais para penetrar a pele. Ele pode até agir criando um filme, deixando o toque mais macio ou o cabelo mais brilhante, mas não chega onde a renovação acontece de verdade.

Outro ponto importante: quando a marca não divulga a fórmula completa nos canais oficiais, já é motivo pra desconfiar. Quem aposta em bons ingredientes geralmente faz questão de mostrar.

No fim das contas, colágeno em creme e shampoo não é garantia de resultado. E entender isso evita expectativas irreais e decepções desnecessárias.

 

Conclusão

Nem tudo que parece tecnológico ou funcional no rótulo tem, de fato, impacto real na pele ou no cabelo. O colágeno em creme e shampoo é um ótimo exemplo disso. Ele pode até estar presente nas fórmulas, mas raramente entrega o que o nome promete.

Por isso, antes de confiar em nomes famosos na frente da embalagem, vale entender melhor como cada ingrediente atua e o que realmente pode ou não atravessar a barreira da pele.

Se você gostou desse tema, talvez também se interesse por um artigo que publiquei sobre hidratação corporal. Nele, explico por que tantos cremes deixam a pele lisa sem hidratar de verdade. Spoiler: deixei lá dicas de alguns hidratantes que realmente hidratam.

Clique aqui para ler sobre hidratantes corporais e entender a diferença entre oclusão e hidratação real.

 

Angella Heringer, esteticista, pós-graduada em tricologia, práticas integrativas e em aromaterapia.

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